Aos 71 anos, aluna diagnosticada com Alzheimer cola grau em Pedagogia pela UFMA: 'Busquei o melhor pra mim'
Aos 71 anos, aluna com Alzheimer cola grau em Pedagogia pela UFMA
Aos 71 anos, aluna com Alzheimer cola grau em Pedagogia pela UFMA
Conceição de Maria Sousa Soares viveu o momento que aguardou por oito anos: com a beca no corpo e cercada pela família e professores, ela recebeu o diploma de Pedagogia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em Imperatriz (Veja o vídeo acima).
“Eu estava ali pensando e digo: ‘Meu Deus, eu busquei o melhor para mim. Não fico pensando em doença, não fico pensando em tristeza, não fico pensando em nada. Só sinto muito orgulho.” disse a pedagoga.
A formatura, realizada na noite do dia 20 de agosto, marcou não apenas o fim da graduação, mas também a realização do sonho de uma mulher que, aos 71 anos, decidiu continuar estudando mesmo após o diagnóstico de Alzheimer. A trajetória que chegou ao diploma foi registrada no próprio trabalho de conclusão de curso, intitulado “Relatos e memórias da escolarização de uma mulher piauiense”.
Apresentado no formato de Portfólio de Experiências, o TCC reuniu memórias e relatos da caminhada educacional de Dona Conceição e foi desenvolvido sob orientação do professor José Edilmar de Sousa. O processo também contou com o acompanhamento da coordenadora do curso de Pedagogia, professora Francisca Melo Agapito.
No Auditório da Igreja Assembleia de Deus de Imperatriz, a cerimônia reuniu 21 formandos do curso de Pedagogia. A solenidade começou por volta das 18h e terminou às 21h. Também participaram da colação estudantes dos cursos de Ciências Contábeis, Enfermagem e Engenharia de Alimentos.
O momento de homenagem veio durante o discurso da professora oradora do curso de Pedagogia, Catiane Cinelli, sorteada para representar os docentes. Ela destacou a trajetória da estudante, que enfrentou desafios durante a graduação e se tornou símbolo de persistência dentro da universidade.
Aos 71 anos, aluna diagnosticada com Alzheimer cola grau em Pedagogia pela UFMA
Divulgação/ArquivoPessoal
Segundo o professor José Edilmar de Sousa, orientador de Dona Conceição no trabalho de conclusão de curso, a docente interrompeu o discurso para pedir aplausos e reconhecer a importância daquela conquista.
“A professora fez uma pausa, pediu palmas e homenageou e destacou que, na luta das mulheres e de diversos grupos que são excluídos muitas vezes da universidade, dos espaços de formação universitária, a Dona Conceição então se sobressai como alguém que vence essas lutas”, relatou.
Natural do estado do Piauí, Dona Conceição sempre teve o desejo de ser professora. Durante os oito anos de graduação, construiu uma história marcada por desafios e adaptações, principalmente após receber o diagnóstico de Alzheimer, em 2022.
Aos 71 anos, aluna com Alzheimer transforma memórias da infância em TCC de Pedagogia na UFMA
Divulgação/ArquivoPessoal
A doença tornou o acompanhamento das atividades acadêmicas mais difícil, mas ela continuou frequentando a universidade com apoio de professores, familiares e adaptações na rotina de estudos.
Para o orientador José Edilmar, acompanhar a estudante durante a formação foi uma experiência de aprendizado.
“Foi exercício de algo que eu tenho dito e defendido, que eu chamo de pedagogia da ausculta, que é algo para além de ouvir no sentido literal ou de ver. Poder interagir com a Dona Conceição nas várias disciplinas e depois no processo de orientação do TCC foi algo desafiador, mas ao mesmo tempo de muito aprendizado”, afirmou.
A coordenadora do curso de Pedagogia da UFMA em Imperatriz, Francisca Melo Agapito, destacou o significado da trajetória da estudante para a universidade.
“A gente vem lutando para proporcionar a formação de cada um. Antes mesmo de vestir a beca, Dona Conceição já carregava o orgulho de estudar Pedagogia”, disse.
Antes de chegar à UFMA, Dona Conceição também passou pela Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL). Agora formada, ela já pensa no próximo objetivo: trabalhar em uma escola e colocar em prática o sonho que acompanhou toda a trajetória acadêmica. “Eu quero trabalhar, eu vou buscar.”, afirmou.
*Estagiária sob supervisão de Liliane Cutrim e Marcus Cidreira.